Chuva em SC: as muralhas do Vale do Itajaí

Projeção de enchente em Blumenau e Rio do Sul se Barragens do Vale do Itajaí não existissem, pelo Ceops, para Cristian Edel Weiss, Cristian Weiss, do Jornal de Santa Catarina RBS NSC Comunicação

Publicada originalmente no Santa em 1/5/2010

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Se não fossem as barragens de Taió, Ituporanga e José Boiteux, o Itajaí-Açu teria subido mais dois metros esta semana, chegando a 10,5 m em Blumenau



CRISTIAN WEISS
BLUMENAU

Enquanto o véu d’água com mais de 50 centímetros de espessura transbordava da Barragem Oeste, em Taió, terça-feira, João da Silva subia, de hora em hora, as escadas do dique para conferir a medição do reservatório. João estava tranquilo, cuida apenas dos serviços gerais da barragem, mas conhece como poucos as particularidades da represa. E sabe da importância que ela tem para os municípios situados depois dela:

– Se não fosse a barragem, a partir de Taió estaria todo mundo debaixo d’água – avisa.

Segunda-feira, o Vale do Itajaí registrou mais uma enchente, causada por 219,7 milímetros de chuva que caíram entre os dias 22 e 27 de abril. Juntas, as barragens Oeste, Sul e Norte represaram 313 bilhões de litros de água que vieram dos afluentes do Rio Itajaí-Açu.

Em Blumenau, o nível do rio alcançou 8,46 m, o suficiente para invadir casas nas ruas mais baixas. Mas se não existissem as barragens de José Boiteux, Taió e Ituporanga, os estragos seriam mais expressivos: o rio chegaria a 10,50 m em Blumenau, apenas um metro a menos do que o nível que castigou a cidade em novembro de 2008. O cálculo foi feito a pedido do Santa pelo engenheiro Ademar Cordero, especialista em Hidrologia e responsável em Blumenau pelos gráficos que expressam o comportamento do Itajaí-Açu em caso de chuva.

Barragem reteve volume de água semelhante ao da cheia de 1984 

– As barragens são um sistema extremamente eficaz. Salvam muitos patrimônios e nos garantem mais tempo para executarmos uma ação de salvamento até que a água possa chegar – analisa o diretor da Defesa Civil de Blumenau, Carlos Olímpio Menestrina.

A marca de 219,7 milímetros de chuva é semelhante à registrada na enchente de 1984, quando a média no Vale foi de 216,21 milímetros e gerou a cheia de 15,46 metros do ItajaíAçu em Blumenau. A diferença, no entanto, é que em 1984 o volume de chuva se concentrou em apenas dois dias, reduzindo a possibilidade de vazão da água. Também não havia a Barragem Norte, em José Boiteux, a maior das três instaladas no Vale e a mais próxima de Blumenau, que esta semana represou 226,67 bilhões de litros de água.

– A barragem de José Boiteux foi importante para a redução da cheia em Blumenau com essa concentração de chuva. Desde que entrou em operação, em 1992, nunca represou tanta água como agora – explica Cordero.

Projeção de enchente em Blumenau e Rio do Sul se Barragens do Vale do Itajaí não existissem, pelo Ceops, para Cristian Edel Weiss, Cristian Weiss, do Jornal de Santa Catarina RBS NSC Comunicação
Capa do Santa tem a sacada da linha da vida para explicar posição das barragens que protegem o Vale



Poderia ser pior

Na segunda-feira, às 19h, o Rio Itajaí-Açu atingiu o nível mais alto da enchente, com 8,46 m. No momento, a Barragem Norte, em José Boiteux, estava com as duas comportas fechadas e operava com 52% da capacidade. A Barragem Sul, em Ituporanga, também tinha as comportas fechadas, com o reservatório ocupado em 43%. Em Taió, a Barragem Oeste transbordava desde as 13h, com a lâmina de água de 40 centímetros de espessura. Por meio de cálculos e simulações dos efeitos das barragens, o engenheiro hidrólogo Ademar Cordero demonstra como a situação poderia ser pior para Blumenau:

Se a Barragem Norte não existisse 

■ É a mais próxima de Blumenau e a que interfere diretamente no nível do rio dentro da cidade. Às 19h de segunda-feira, chegavam à barragem 561 mil litros de água por segundo. Se não fosse represada, os hidrólogos calculam que a água retida na Barragem Norte aumentaria em 1,43 m o nível do Itajaí-Açu em Blumenau

■ O volume da barragem seria acrescido ao nível do Rio ItajaíAçu, caso a barragem não existisse. Assim, se dependesse só de José Boiteux, o nível do rio em Blumenau poderia ter chegado a 9,90 m no horário de pico da enchente

Se as barragens Oeste e Sul não existissem 

■ No horário em que o Itajaí-Açu atingiu o pico em Blumenau, as duas barragens represavam um volume de água correspondente no município a 239 mil litros por segundo. Pelo cálculo de deslocamento do volume, a vazão corresponderia a 60 centímetros de água no Itajaí-Açu em Blumenau

■ Caso as duas barragens não existissem, a medida seria somada ao nível máximo do Itajaí-Açu em Blumenau e teria resultado num pico de 9,06 m

Se as três barragens não existissem

Projeção de enchente em Blumenau e Rio do Sul se Barragens do Vale do Itajaí não existissem, pelo Ceops, para Cristian Edel Weiss, Cristian Weiss, do Jornal de Santa Catarina RBS NSC Comunicação

■ Juntas, as barragens de Taió, José Boiteux e Ituporanga receberam e armazenaram um volume de água que corresponderia em Blumenau a 800 mil litros por segundo às 19h de segunda-feira. Se nenhuma das três existisse, o rio em Blumenau teria chegado a 10,50 m. Confira no gráfico a evolução real do Itajaí-Açu nos cinco dias de enchente em comparação à simulação caso as barragens não existissem.

FONTE: Engenheiro hidrologista Ademar Cordero/Ceops da Furb


Controle das barragens é feito por famílias 

A Barragem Oeste, em Taió, é operada pelos irmãos Jodir e João da Silva, que há cinco anos foram contratados para medir o nível de água represada e manter o local limpo. De hora em hora, observam a altura do rio e enviam as informações por meio de radioamador aos engenheiros do Deinfra, em Florianópolis. Para ser um operador não é exigido curso ou formação específica. Basta boa vontade.

Em Ituporanga está o mais experiente operador. José Antonio Lenzi, 64 anos, há 35 trabalha na Barragem Sul. Antes, por 12 anos operou a barragem de Taió. Ele conta com a ajuda do filho e de mais duas pessoas.

– O conhecimento de todo o sistema que organiza a barragem a gente só aprende no dia a dia e com as enchentes. Não há curso que ensine – considera Lenzi.

Diretor de Obras Civis e Hidráulicas do Deinfra, Luiz Cavalheiro garante que não há necessidade de engenheiros ou especialistas acompanhando diretamente as barragens. Desde dezembro de 2009 o monitoramento é feito a distância, via satélite, e os engenheiros do Deinfra são enviados às represas apenas em casos de emergência, que exijam cálculos para a liberação das comportas.

Rio do Sul sai do estado de alerta

Com o nível do Rio Itajaí-Açu abaixo de 6,50 m em Rio do Sul, sexta-feira a Defesa Civil retirou o estado de alerta e autorizou as famílias que residem nos bairros Bela Aliança e Taboão a deixar os abrigos provisórios onde estavam desde a enchente dessa semana. Das 24 famílias que estavam nos alojamentos na tarde de quinta-feira, seis já iniciaram a operação de retorno.

As outras 18 famílias que permanecem desalojadas, um total de 67 pessoas, moram na parte baixa do Loteamento Jardim Alexandro, no Pamplona, e ainda não podem retornar. Como há possibilidade de chuva no final de semana, a Defesa Civil ficará de plantão por 24 horas, no 199.


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Projeto original previa oito barragens

Estudo finalizado em 1988 também sugeria ampliação do Rio Itajaí-Açu


Após as enchentes de 1983 e 1984, uma comitiva de técnicos e engenheiros da Agência de Cooperação Internacional do Japão veio ao Vale do Itajaí estudar as condições geográficas da região e projetar soluções para as cheias. Finalizado em 1988, o estudo conhecido como Projeto Jica propunha o alargamento do Rio Itajaí-Açu da nascente até a foz. Mas a principal proposta era a construção de cinco barragens, sendo duas delas em Trombudo Central e outras três em Benedito Novo, Apiúna e Botuverá. Nunca houve definição sobre as características, a dimensão e a capacidade de cada estrutura.

Hoje, duas ações do Projeto Jica se mostram inviáveis por causa do impacto ambiental e social que causariam: o alargamento do rio e a construção da barragem em Apiúna. A construção de represas, no entanto, ainda hoje é necessária para conter as cheias, reforça o engenheiro hidrólogo Ademar Cordero, que participou de algumas discussões do projeto. Um banco japonês estava disposto a financiar US$ 300 milhões para as obras, que estariam a cargo do Departamento Nacional de Obras e Saneamento (DNOS), do governo federal. O departamento foi extinto em 1990 e as propostas foram rejeitadas por especialistas catarinenses.

– Hoje, a proposta não daria o retorno que eles estavam esperando. Na época, era mais simples fazer obras desse porte, não havia tantas limitações jurídicas e ambientais – explica o diretor de Obras Civis e Hidráulicas do Deinfra, Luiz Cavalheiro, que reconhece a necessidade de mais barragens, mas avisa que não há projeto para isso.

Japoneses vão recriar propostas para contenção das cheias 

A partir de segunda-feira, 11 engenheiros da Agência de Cooperação Internacional do Japão retomam o estudo sobre a Bacia Hidrográfica do Rio Itajaí-Açu. O objetivo do novo Projeto Jica é estudar as características de uma área de 15 mil quilômetros quadrados para levantar as causas das enchentes e propor soluções, explica a coordenadora para Santa Catarina, Reginete Panceri.

Desta vez, além das cheias, também serão analisados pelos técnicos japoneses os deslizamentos de terra. A comitiva ficará no Vale do Itajaí até setembro de 2011. Nesta segunda-feira, às 15h, uma cerimônia na Secretaria de Desenvolvimento Regional de Blumenau apresentará os especialistas responsáveis pelo projeto.

Cidades ajudam Taió

Todos os Centros de Educação Infantil e as escolas das redes municipal e estadual de Taió retornam às atividades normais segunda-feira. O transporte escolar também volta. Sexta-feira já não havia mais enchente e os desalojados voltaram para casa. A Defesa Civil Estadual enviou doações que serão entregues às famílias atingidas. Blumenau também lançou campanha de solidariedade. A cidade foi a mais atingida pela chuva desta semana no Vale.

Serviço

Doações - Até 9 de maio, no 23º Batalhão de Infantaria; PM; Corpo de Bombeiros; Semascri (Rua Antônio da Veiga, 439, Victor Konder); mercados BIG, Bistek, Cooper, Giassi e Super Top.


Projeção de enchente em Blumenau e Rio do Sul se Barragens do Vale do Itajaí não existissem, pelo Ceops, para Cristian Edel Weiss, Cristian Weiss, do Jornal de Santa Catarina RBS NSC Comunicação


Escudos contra enchente

Barragem Oeste - Taió

Inauguração: 1973
Quem projetou: DNOS, extinto em 1990
Quem administra: Deinfra
Comportas: 7
Capacidade: 83 bilhões de litros de água, em uma estrutura de 25 metros de altura
Tempo para a água chegar a Blumenau: 25 horas
Cidades diretamente afetadas pela vazão do Rio Itajaí D’Oeste: Taió, Rio do Oeste, Rio do Sul e Agronômica
Quando as comportas são abertas: Se o Rio das Pombas, em Rio do Oeste, estiver cheio, ela é a última a ter as comportas abertas
Equipe de trabalho: 2 pessoas

Barragem Norte - José Boiteux

Inauguração: 1992
Quem projetou: Departamento Nacional de Obras e Saneamento (DNOS), extinto em 1990
Quem administra: Departamento Estadual de Infraestrutura (Deinfra)
Comportas: 2
Capacidade: 357 bilhões de litros de água em uma estrutura de 58,5 metros de altura
Tempo para a água chegar a Blumenau: 18 horas
Cidades diretamente afetadas pela vazão dos rios Hercílio e Itajaí do Norte: todas entre Blumenau e Itajaí
Quando as comportas são abertas: Se o Rio Itajaí-Açu em Blumenau estiver muito cheio, a barragem fica fechada. Caso o reservatório encha demais, analisa-se a possibilidade de deixar transbordar ou abrir as comportas
Equipe de trabalho: 4 pessoas

Barragem Sul - Ituporanga

Inauguração: 1976
Quem projetou: DNOS, extinto em 1990
Quem administra: Deinfra
Comportas: 5
Capacidade: 93,5 bilhões de litros d’água, em uma estrutura de 43,5 metros de altura
Tempo para a água chegar a Blumenau: 21 horas
Cidades diretamente afetadas pela vazão do Rio Itajaí do Sul: Ituporanga, Aurora e Rio do Sul
Quando as comportas são abertas: depende do nível do Rio Itajaí-Açu em Ituporanga e Rio do Sul, cidade atingida pelo entroncamento desta barragem e da Barragem Oeste
Equipe de trabalho: 4 pessoas

Fonte: Agência de Cooperação Internacional do Japão (Jica) e Centro de Operação do Sistema de Alerta da Bacia Hidrográfica do Rio Itajaí-Açu (Ceops)

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