Menos policiais para combater mais crimes


Publicada originalmente no Santa em 27/3/2010

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Roubos no comércio de Blumenau cresceram 43% em oito anos, enquanto efetivo da PM caiu 3%

CRISTIAN WEISS
BLUMENAU

Clair Schmidt reviveu essa semana o trauma que carrega desde 2009, quando teve o estabelecimento roubado por uma quadrilha armada com metralhadoras. No final da tarde de segunda-feira, no Testo Salto, enquanto trabalhava na Relojoaria e Ótica Safira, de propriedade da família, foi novamente surpreendida por dois bandidos. A dupla entrou de capacete, exigiu dinheiro e antes de escapar perguntou se a rua tinha saída para fugir. Apesar do susto, a comerciante conta o episódio como se fosse uma história qualquer, porque para ela esses crimes só terão fim quando a população reagir. Clair e o marido, Santo da Silva, estão desacreditados em relação às autoridades de segurança pública.

– Não se sabe mais o que fazer. Na nossa região, os ladrões estão fazendo um arrastão. A polícia não faz nada. Diz que prende, mas no dia seguinte a Justiça solta – desabafa.

Diante dos invasores armados, a orientação é uma só: entregar o que eles exigem para preservar a vida. O dono de uma lotérica da Itoupava Central, que tem medo de se identificar, decidiu investir na proteção do próprio patrimônio para evitar novos assaltos, como os três dos quais já foi vítima. O empresário instalou porta giratória com sensor de metais e instruiu os funcionários sobre como agir na presença de suspeitos.

Efetivo da Polícia Militar é o menor desde 2002 

Os assaltos à joalheria e à lotérica contribuem para um alerta de criminalidade registrado em Blumenau nos últimos oito anos, quando os roubos em estabelecimentos comerciais cresceram 43%. Em contrapartida, o efetivo da Polícia Militar, responsável pelo combate direto a esses crimes, recuou 3% no mesmo período, devido a aposentadorias e transferências de agentes que não foram repostas. Somente no ano passado, 14 se aposentaram e um foi excluído da corporação. Os atuais 296 policiais formam o menor contingente de Blumenau nos últimos oito anos.





















O crescimento da violência



Crimes 2009 2008 2007 2006 2005 2004 2003 2002
Furto em residências 769 634 863 957 1029 1130 988 703
Furto no comércio 679 703 633 507 626 536 555 511
Furto em veículos 487 358 432 505 530 416 531 538
Arrombamento a veículos 146 225 203 250 472 287 500 347
Roubo contra pessoas 250 286 288 266 216 252 211 193
Roubo no comércio 136 183 232 181 142 107 176 95
Roubo em residências 21 28 26 34 31 20 34 17





Assaltos aumentam insegurança

A população de Blumenau cresceu 11% entre 2002 e 2009, mas os roubos e furtos superaram o ritmo. Há 10 anos, havia um policial para cada 878 blumenauenses. Hoje, a relação está em um agente para cada 1.022 pessoas. A marca é quase o dobro da de cidades como Tubarão (um policial para cada 586 habitantes) e Joinville (um para 627).

– É importante cortar pela raiz. Se não houver policiamento suficiente para inibir os criminosos, a tendência é que os pequenos crimes evoluam para maiores – avalia o doutor em Direito das Relações Sociais, Romeu Falconi.

O professor de Criminologia da Univali, Sandro Sell, avalia que o crescimento dos pequenos delitos intensifica na população a sensação de descontrole, porque se apresenta como um ambiente convidativo para crimes mais violentos, que ameaçam a vida das pessoas e podem afetá-las até em lugares antes considerados seguros, como a própria casa.

Como agravante, a Polícia Civil também está desfalcada. A promessa feita em maio do ano passado pelo governador Luiz Henrique da Silveira de designar 30 agentes para o município não se cumpriu. Nesta semana vieram 21 para a região, mas, para Blumenau, apenas sete, que compõem agora o efetivo de 81 policiais civis. O ideal, entretanto, seriam 140, conforme avaliação do delegado regional da Polícia Civil de Blumenau, Rodrigo Marchetti.



ENTREVISTA
RONALDO BENEDET, SECRETÁRIO DE SEGURANÇA PÚBLICA

“Blumenau é uma das cidades mais seguras do Estado”

Após cinco anos como secretário estadual de Segurança Pública e Defesa do Cidadão, Ronaldo Benedet deixa o cargo quarta-feira para se candidatar a deputado federal. À frente da secretaria, foi criticado por lideranças do Vale por usar critérios políticos na distribuição de policiais e no aparelhamento das forças de segurança. Em entrevista ao Santa, Benedet se defende. O nome mais cotado para substitui-lo é o de Paulo Roberto Neves, delegado e atual diretor geral da secretaria.

Jornal de Santa Catarina - O senhor deixa o cargo máximo da segurança pública em Santa Catarina na próxima semana. Sai com o dever cumprido?
Ronaldo Benedet - Tivemos limitações financeiras e legais. Mas a sociedade despertou para a importância da segurança pública. O maior investimento foi em pessoas, informatização, modernização da polícia, renovação da Polícia Civil e Militar, dividimos os comandos pelo Estado. Saímos de 6 mil presos e estamos com 14 mil. E bandido não vai para a cadeia sozinho.

Santa - Em abril de 2009, o governador e o senhor prometeram reforço de 30 policiais civis para Blumenau. Quase um ano depois, vieram 21 para a região e apenas sete chegaram a Blumenau na semana passada. Há previsão de atender às necessidades do município ainda em 2010? 
Benedet - Não. Em princípio iriam 12 e um delegado, mas o governador mandou me chamar e expliquei: vão 21 só para Blumenau, um delegado e 20 agentes. Depois vão nove escrivães, que só não foram ainda porque a escola começa em abril. E era só para Blumenau, mas se redistribuíram depois, não me cobrem. A palavra será cumprida com os outros nove que serão formados até junho.

Santa - O Santa publicou reportagem segunda-feira que revela que desde 2002 o Estado não compra novas viaturas para a PM de Blumenau. O senhor acha possível prevenir o crime e combatê-lo com rondas eficientes usando carros antigos? 
Benedet - Blumenau tem a melhor frota de viaturas do Estado. A cidade tem um dinheiro (Fundo Municipal de Segurança Pública) que nós não recebemos, fica em Blumenau. Por isso a cidade sempre teve recurso e sempre comprou as viaturas. E quem decide o destino não é a secretaria, é o Comando Geral da Polícia Militar.

Santa - O senhor deixa o cargo para concorrer a um cargo político. Ao mesmo tempo, as lideranças do Vale do Itajaí argumentam que a atenção à segurança pública de Blumenau e região segue mais critérios políticos do que técnicos. O que o senhor tem a dizer? 
Benedet - Não tem nada de política, é critério técnico. O pessoal sempre nos cobra policiais por número de habitantes. Um dos critérios é população, mas o outro é criminalidade alta, homicídio. A Grande Florianópolis também reclama que tem falta de PM, mas tem 3 mil. Ano passado, Blumenau teve 19 homicídios para 300 mil habitantes.

Santa - Mas o número de roubos, que aumentam a sensação de insegurança, cresceu 43% desde 2002. Reforçar o policiamento não é investir na prevenção para conter a violência antes de chegar a números alarmantes de assassinatos? 
Benedet - Só a polícia não acaba com crime. Se fosse, então Florianópolis não teria crime. O maior contingente do Estado está ali. Blumenau tem um dos melhores indicativos de segurança entre as maiores cidades do Estado. Se os números mostram que ocorrências de roubos aumentaram é porque nós nunca tivemos uma estatística exata como agora. Hoje fazemos planejamento em cima de números verdadeiros, alguns anos atrás era no chutômetro. Claro que falta efetivo no Estado, preciso de 2 mil homens na PM hoje, mas não tem recurso disponível.


Reportagem foi manchete do Jornal de Santa Catarina 


Como evitar a violência

A Constituição Federal estabelece como dever do Estado a garantia de segurança pública aos cidadãos. Mas se o Poder Público demonstra incapacidade de conter a violência, medidas devem ser tomadas pela população, como apontam especialistas.

Curto prazo 
O combate aos assaltos não pode ser exclusividade do Estado, segundo o professor de Criminologia da Univali, Sandro Sell. Para o especialista, a população precisa se preocupar com investimento em segurança privada, buscar parcerias com os conselhos de segurança dos bairros e mudar o comportamento ao sair às ruas. – A polícia nunca vai dar conta sozinha de um crime tão pulverizado – argumenta.

Médio prazo
O subcomandante da Polícia Militar de Blumenau, major Mario Sidnei Rossi, atribui o crescimento dos crimes à morosidade da Justiça e à sensação de impunidade dos criminosos. – Ter menos policiais não é o problema. O fato é que a polícia prende os criminosos, mas eles são soltos em seguida. Dos 1,7 mil encaminhados pela PM à delegacia no ano passado, cerca de 60 tinham sido presos mais de uma vez pelos mesmos crimes – explica.

Longo prazo 
Acesso dos jovens carentes a educação e lazer é a principal medida apostada pelo professor de Sociologia Política da Furb, Nelson Garcia Santos, para evitar a evolução do crime. – O perfil dos que caem na criminalidade é de jovens que não têm perspectiva de vida. É preciso levar arte, educação profissional e esportes nas comunidades para que eles experimentem e acreditem no sucesso pessoal fora dos caminhos do crime – analisa.


O Santa noticiou


Dia 11 de março, o Santa publicou que, dos 30 policiais civis prometidos para Blumenau, o Estado mandaria no máximo 20.

■ Na edição de 20 e 21 de março de 2010, o Santa publicou que, dos 30 policiais civis prometidos para Blumenau, 21 vieram para o Vale do Itajaí e apenas sete para Blumenau.

■ Dia 22 de março, o Santa revelou que a última viatura comprada pelo Estado para Blumenau foi em 2002



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